Em uma breve experiência nesta vida flutuante, você logo percebe que no dia-a-dia da cidade sua vida parece correr dentro de um cenário, uma espécie de laboratório climatizado, sem grandes variações, onde até as verdades são elaboradas. A bordo, a natureza corre em suas veias e parece estar a todo o dia querendo se apresentar a você. Como em um convite diário à vida real. Aquela vida mais sustentável, com mais atenção aos detalhes, com incertezas sobre a estabilidade das coisas e, principalmente, chamando sua atenção para os outros habitantes deste planeta. A bordo você se preocupa diariamente com o consumo responsável de água e energia. Não que você deva economizar, na verdade aqui você consome da forma que deveria ser em qualquer lugar. Acredito que após perceber que a luz não se cria no interruptor e que a água não é infinita como parece quando você gira a torneira, tudo fica mais claro em sua cabeça sobre o que utilizar de forma responsável. Por outro lado, você percebe que sem luz, por exemplo, é possível nadar e ver planctons brilhando na água como se fossem vagalumes, ver a lua de uma forma muito mais bonita, além de logo notar que entre o céu e a terra há muito mais estrelas do que imaginamos e que elas brilham muito mais também. Antes de um simples passeio, no mar, você precisa definir o caminho, analizar a previsão do tempo, a ondulação, variação de maré, checar os equipamentos, enfim, prever tudo. Sim, isso te consome um certo tempo e só é possível de fazer por causa de pessoas que estão na cidade cuidando disso tudo. Rs! Porém, apesar disso, nestes passeios temos sempre alguma surpresa imprevisíveis da natureza. Um grupo de golfinhos pode te acompanhar no passeio, uma baleia pode saltar como uma bailarina em uma apresentação ou uns peixinhos se aproximarem para um rápido lanche. A falta de controle sobre o vento te faz gastar energia puxando os cabos das velas e mantendo o barco no rumo, por outro lado a sensação de liberdade e a conexão direta com a natureza são sensações impagáveis e é impossível descrever aqui. Você terá que nos visitar para entender!!! Ouvir apenas as canções do oceano, acompanhar o balanço das ondas e perceber que daquela forma você pode ir a qualquer lugar do planeta é algo divino. Parece que você vira o capitão de fato não só do barco, mas também de sua alma. Talvez como se você entrasse em um clube altamente restrito e tivesse naquele momento ganho o timão de sua vida. Enfim, acredito que a vida a bordo deveria ser experimentada por todos, mas com o devido cuidado, pois é viciante como uma cachaça ou uma droga muito forte. Parece que quando o sal entra em suas veias, o oceano não te deixa partir. Ele passa a fazer parte de sua vida.
 Sandro Masseli.